sábado, 2 de março de 2013

MONÓLOGO DE UM PERSONAGEM INEXISTENTE




Meu nome ainda não sei. Também não sei meu sexo, idade, profissão, hobbys, enfim... Estou aqui na mente do escritor. Talvez eu seja um impulso elétrico, uma inspiração ou uma ideia... sei lá. Não me pergunte como adquiri consciência. Consciência, provavelmente, não; pois nada sou ainda... Nasci de uma observância? Leitura? Imaginação? Vai saber...

Posso ser um anjo, gênio, vilão, poema, palavras, imagem, som, reflexão... Quero nascer, expor-me, imortalizar-me, porém, somente meu criador saberá... Talvez eu seja um animal em alguma fábula, ou, quem sabe, seja como a Baleia ou Quincas Borba por exemplo. Um herói como Ulisses, Dom Quixote, Macabeth. Essas personagens não as conheço, mas vejo aqui no cérebro do meu criador. Alguns com boa aparência, outros nem tantos. Deparei-me com seis personagens de Pirandello. Esses, ao contrário de mim, procuram um autor. Eu já estou aqui. Sou uma sombra, um enredo, uma projeção. Como e quando sairei... Não posso precisar... Nada conheço além do que vejo; nada vejo além do que ouço; nada ouço além do que sinto... A época não  tem muita importância. Posso ser do século I ao ano 3050, somente meu autor saberá.

Talvez eu seja uma estátua que tudo observa muda e impassível. Um androide, robô, um cidadão comum. Um verbo, uma ação... Mas no momento sei que nada sou, querendo ser alguma coisa. Hum... acho que ouvi isso, ou li essa ideia em algum canto da mente a qual habito.

Quantas imagens vejo de mundos e mares explorados e outros a serem descobertos e criados? Assim a expectativa me atormenta nesses tempos. É provável que eu retorne. Adormeça – como A Bela adormecida, ou desapareça como um raio, uma brisa, um sopro de ideia, que vem e vai-se rapidamente... Mas, não quero pensar nisso por hora, pois ora, não sou um vivente agora?

Aqui parece o espaço de tantos impulsos elétricos vibrantes que vejo no momento. Brilham como estrelas. Uma visão indescritível. É tão belo e assustador ao mesmo tempo pelas diversidades de pensamentos e ideias. Só mesmo estando desse lado para observar e ter uma opinião. Ainda aguardo minha vez. Quando será, espero que breve. Sinto meu criador pensando em mim. É palpável. O toque em mim é sem tato físico, porém sinto a carícia, o abraço, a sedução...

O Bom é vê-lo escrevendo sobre mim. Vejo através dos seus olhos. Porém, não me vejo nessas palavras dispersas. Ouço as melodias variadas, sinto a sensação sensível de cada tom... o que serei? O que farei? Ser, às vezes, fere.

Meu nome poderia ser – nesse instante – Tormento, pois quero ser alguma coisa ou algo e não consigo fazer-me – ou ser moldado –, e transformo-me em dor física no cérebro do meu criador.

Desfar-me-ei por enquanto. Serei poeira, impulso, inspiração, sonho, fantasia, ideia, palavra. Renascerei – quem sabe – numa outra oportunidade. E quando acontecer, você saberá.


13-14/02/2013




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Um comentário:

  1. Excelente texto. Na mente do poeta podemos ser o que quiser...
    Cordial abraço.

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